• 14 de outubro de 2019

Uma vela para Willian/Por Sérgio Cintra

Dalton Trevisan, em seu “Cemitério de Elefantes, de 1964, conta-nos a respeito da morte de um transeunte, que, aos poucos, tem todos os seus pertences furtados, inclusive a aliança. Dario – prenome descoberto com dificuldade – era apenas um “estrangeiro”, um desconhecido, “Um rosto na multidão”, filme estadunidense de Elia Kazan (1957).  No último dia 20 do fatídico agosto,  depois de sequestrar um ônibus na ponte Rio-Niterói, Willian Augusto da Silva, de 20 anos, foi, várias vezes, alvejado por um franco-atirador e tornou-se apenas um “corpo estendido no chão”, para delírio de milhares, incluindo Witzel (governador do Rio) e Bolsonaro. 

Diferentemente da ficção de Trevisan, o jovem Willian não teve subtraídos, pela turba, guarda-chuva, cachimbo, documentos, paletó, alfinete de pérola ou aliança, como ocorrera com Dario; os seis tiros que o atingiram, surrupiaram muito mais: a possibilidade do diálogo à violência; da humanização à coisificação; da morte à vida. Há os que dirão que é melhor ceifar uma vida em vez de 39. Pensando de maneira cartesiana e rasa; sim. Todavia, ao analisar-se toda a trama, vê-se que o desfecho poderia ser outro. Afinal, diante das circunstâncias, era notório o desequíbrio psíquico e a inexperiência para o ato do vitimado. Talvez optar por um tiro não letal ou por trazer à cena Renata, a mãe de Silva. Não, absolutamente não. O importante é eliminar, abater e, principalmente, comemorar como se fosse um gol em final de Copa do Mundo de Futebol. 

Entre Dario do conto e Willian da realidade há em comum   o não-lugar, não-pertencimento. Não só essa sensação permanente de exílio dentro de determinado espaço que lhe é peculiar –  mais devastadora  que o degredo em terra estranha – como também é  igualmente catastrófica a percepção de não fazer parte de certo contexto. O não-estar e o não-ser levam ao aniquilamento do “eu” e, consequentemente, a rupturas que vão da depressão ao (auto)aniquilamento. O antropólogo Marc Augé afirma que o não-lugar leva à ausência de identidade; talvez, por causa disso, Manoel de Barros disse poeticamente: “Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos”.

Difícil estabelecer o quando e o onde nos quais nos perdemos, nos quais nos desumanizamos. Assim, ao nos depararmos com a crescente “desidentificação” do ser humano, não há como não pensar em Mário de Sá-Carneiro: “ Perdi-me dentro de mim /  Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim”. Provavelmente, Willian não tenha lido esse conto de “o vampiro de Curitiba” (alcunha de Trevisan) e nem tenha ouvido “De frente pro crime”(João Bosco), que muito bem retratariam sua vida e sua morte: “Tá lá o corpo estendido no chão / Em vez de rosto, uma foto de um gol / Em vez de reza, uma praga de alguém / E um silêncio servindo de amém”.

Sérgio Cintra é professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá.

sergiocintraprof@gmail.com

Rufando Bombo

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