• 22 de novembro de 2019

Teleofobia, esse medo de fazer planos causa mais problemas do que você imagina

EL PAÍS

Um amigo liga para o outro e anuncia que dentro de dois meses passará por sua cidade e que gostaria de vê-lo, talvez lhe pergunte inclusive sobre a possibilidade de se hospedar na sua casa durante o fim de semana e fazerem planos juntos.

Partindo da ideia de que ambos se dão muito bem, o normal é que o segundo se alegre com a notícia; mas a reação é muito diferente se a pessoa sofrer de teleofobia, ou seja, a sensação de medo ou temor perante planos definidos. Então sua mente começará a se sentir incomodada com esta obrigação que aparece em um deserto de encontros e compromissos, e pensará em tudo o que poderia fazer (na verdade nada de concreto) se esse inconveniente não tivesse surgido em seu horizonte. Anteverá todo tipo de problemas relacionados com seu amigo e sua estadia. Talvez tenha mudado e já não seja o mesmo, ou não goste do quarto onde será alojado. Recordará que não tinham gostos iguais e vislumbrará pequenas discussões na hora de fazer planos para o fim de semana e, se sua imaginação for poderosa, coisa que costuma ocorrer nestes casos, chegará até a temer que a amizade acabe por uma bobagem qualquer. Passar 48 horas juntos não é tarefa fácil!

A pessoa acometida de teleofobia começa a dar excessiva importância a esse pequeno acontecimento, e se sua ansiedade continuar aumentando ela pode chegar a inventar uma desculpa para anular o compromisso e evitar assim qualquer tipo de desastre. Porque quem tem a personalidade desse tipo foge de planos como o diabo da cruz, porque a mera perspectiva de ter que marcar com alguém ou ir a um evento lhes causa um enorme desassossego.

Mas a teleofobia não alcança apenas a dimensão social (festas, reuniões, encontros, aniversários), pois o desgosto com se comprometer afeta também a vida profissional e pessoal. Medo de optar por um trabalho melhor, com a responsabilidade que isso acarreta, ou incapacidade de se decidir a comprar uma casa, ter filhos, adotar um cachorro ou ir morar em outro país, com melhores oportunidades. O futuro planejado não aparece com boa cara aos olhos destas pessoas, mas sim como um lugar inseguro, sombrio e cheio de ameaças. Daí que muitos se gabem de viver no presente, base do mindfulness e o único tempo que existe realmente (o passado já se foi, e o que está por vir é só uma ideia, mas não uma realidade). A diferença entre eles e os que estão perto de alcançar a paz é que os primeiros escolhem o aqui e agora, única e exclusivamente por medo, não por outra coisa.

A ansiedade que há por trás de toda teleofobia

Alguém já disse que a depressão é um excesso de passado, e a ansiedade, um excesso de futuro. Segundo Javier Garcés, psicólogo e presidente da Associação de Estudos Psicológicos e Sociais, “eu não qualificaria essa síndrome como fobia, eu lhe poria outro nome, tipo ‘o radical de personalidade irresponsável’, porque é mais um traço da personalidade, que se vê exacerbado pela ansiedade, que é o que está por trás deste comportamento. Hoje em dia se fala muito em viver o presente, mas todo mundo antecipa o futuro de alguma forma, a diferença é como se faz isso, se de uma forma saudável ou com medo, e a pessoa que sofre de teleofobia o que faz é evitar esse mal-estar que provocado por planos de médio-longo prazo”.

A sociedade do cansaço, que enche nossas agendas com compromissos profissionais e familiares, nos deixa exaustos para o fim de semana, momento que se supunha de lazer e diversão, embora muitos comecem a considerá-lo como uma UTI que permite se recuperar para a semana seguinte. “Até as férias passaram a ser angustiantes para muitos, num mundo tão competitivo, onde tudo o que fizermos, inclusive o lazer, precisa estar rodeado de excelência”, sentencia Garcés, que continua: “A diferença entre um depressivo e alguém que sofre de teleofobia é que o primeiro dirá que não a qualquer convite ou proposta, já que esta doença se caracteriza por uma falta de energia e a sensação de que qualquer mínima coisa exige muito esforço; já o segundo se debaterá entre a ideia de que deve ir, porque tem que continuar mantendo uma vida social, e a ansiedade que o acontecimento lhe produz”.

Daniela, 43 anos, moradora em Palma da Mallorca (leste da Espanha), adorava fazer planos de longo prazo, especialmente para viagens. “Sempre dizia que o melhor de viajar era planejar tudo antes, emitir as passagens aéreas, procurar hotel, ler e se informar sobre o destino. Era uma tarefa muito atraente, mas comprovei como, num período da minha vida que tinha muita ansiedade, se transformou em algo ameaçador. Já não via o lado bom, e sim os inconvenientes e problemas, e jamais saía de férias sem um seguro médico. Felizmente, voltei a recuperar minha paixão pela aventura quando minha situação pessoal mudou para melhor.”

Outros motivos para temer os planos no horizonte

“A verdade é que este transtorno ainda está muito pouco identificado”, observa a psicóloga espanhola Marisol Delgado, especialista em psicoterapia pela Federação Europeia de Associações de Psicólogos (EFPA, na sigla em inglês). “Ninguém vem para a terapia por este problema, mas ele pode vir à tona durante as sessões, embora, geralmente, não incomode muito a quem sofre dele, mais ao seu cônjuge e a quem está ao seu redor. Além disso, às vezes se vê como algo positivo, mais relaxado, no lado oposto das personalidades que querem ter tudo controlado.”

Embora a ansiedade, a saturação e o cansaço sejam os grandes protagonistas por trás desse comportamento, nem sempre são os únicos. Segundo Delgado, “o medo de não cumprir com o combinado, com o que alguém se propôs, de falhar consigo mesmo, pode ser outro motivo. Planejar é, em certa medida, correr riscos, e há pessoas muito rígidas que, diante do medo de decepcionar, preferem não fazer nada. Poderia ser o caso da comemoração do próprio aniversário. Muitas pessoas, diante da perspectiva de organizar uma festa e que dê errado, ou que os convidados previstos não apareçam, ou inclusive que chova, preferem não fazê-la. No fundo toleram mal a frustração e têm pouca autoestima”.

FOTO ILUSTRATIVA

Rufando Bombo

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