• 22 de janeiro de 2020

Sozinho/ Por Gabriel Novis Neves

A solidão é a grande inimiga dos seres humanos por seus efeitos deletérios, e atinge severamente o idoso.
A falta de alguém com quem possa compartilhar suas ideias e sentimentos, assim como, lhe ajudar nas decisões do dia a dia, afeta profundamente a qualidade de vida das pessoas mais velhas.
Sabemos perfeitamente que somos seres finitos e esse encerramento inevitável nos libera de todos os deveres e dissabores da vida moderna.
Assim mesmo, o solitário não consegue, muitas vezes, metabolizar minúsculas preocupações comuns ao cotidiano.
A fixação nesse foco patológico é traduzida em dias mal resolvidos e noites com um sono de péssima qualidade.
Não acredito em fármacos para esses “distúrbios” que, no geral, tem pouca importância se vistos de fora.
Até porque, carecemos de uma sociedade que valorize aqueles que já deram a cota devida de seu trabalho e já deveriam merecer atenções especiais dos respectivos governos.
Ao contrário, o que se vê é o mais profundo desprezo, facilmente constatado nas grandes filas bancárias de princípio de mês.
O que vemos aí é um espetáculo deprimente, em que idosos em condições físicas precárias, se arrastam em busca de seus minguados salários.
As rápidas mudanças no modelo da nossa sociedade, onde valores duvidosos são priorizados em detrimento dos verdadeiros, talvez seja a causa maior.
A tranquilidade poderá ser reconquistada com políticas que devolvam aos velhos a dignidade merecida.
A ausência física daqueles que nos são caros, mas que estão limitados por distância geográfica, além da nossa menor capacidade de locomoção, são agentes propícios ao desencadeamento desta “síndrome” que afeta os solitários.
Terceirizar essa situação com terapêutica médica não me parece também uma solução inteligente.
Mais complicado é que, em certas situações, nem a profilaxia pode ser feita, já que a organização econômica financeira interfere nos nossos destinos e não pode ser abandonada.
Procuro sempre ajudar as pessoas solitárias, pois estudei muito seus comportamentos e finalizações.
Em um mundo egoísta, onde cada um está mais preocupado com o seu umbigo e a solidariedade não prolifera, esse desejo torna-se uma tarefa quase inalcançável.
Somos seres gregários por natureza, e a tentativa de quebrar as regras naturais é causa de grande infelicidade para pessoas que, já no ocaso da vida, ficam extremamente suscetíveis à falta de atenção e de carinho dos circunstantes.

Gabriel Novis Neves, reitor fundador da UFMT, é médico em Cuiabá-MT. Artigo publicado originalmente em 21 de julho de 2015.

Rufando Bombo

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