• 14 de outubro de 2019

Procura-se : Escritores Cuiabanos ocupam espaços de Cuiabá com manifesto literário

Por CAIO RIBEIRO E EDUARDO MAHON

A capital acordou diferente. Pelos muros da cidade, estão pregados panfletos nos quais escritores são procurados. Por quê? Trata-se de uma provocação estética e semântica, além de se configurar uma intervenção na dura linguagem urbana. Se, de um lado, vivemos sob a égide da perseguição ao humanismo como expressão livre, por outro, escritores são procurados para nos salvar desse opaco período cultural. Procura-se porque os intelectuais estão sendo caçados. Procura-se porque se deseja encontrar. Procura-se também porque se quer conhecer. Esse triplo significado está na nossa paródia das antigas recompensas que se ofereciam pela cabeça dos fora-da-lei. Nós, escritores, estamos nos sentindo perseguidos nesse sentido polifônico: repressão e desejo. Desde quando esses sentimentos deixaram de andar juntos?

Procura-se. Querem nos conhecer. Há gente fazendo literatura de qualidade. O que falta é espaço, circulação, oportunidade. Até mesmo nos ambientes em que seria previsível valorizar escritores, estamos nós arrostados por outras letras. Procura-se. Do poder público, as verbas minguadas formam uma colcha de retalhos tão curta quanto inútil. Incentivos episódicos e politiqueiros, ausência de uma estratégia coordenada com setores da educação. Somos caçados há anos, procurados como baderneiros. Estamos foragidos dos gestores insensíveis e não pretendemos nos entregar sem resistência.

A despeito de todo o descaso com a literatura produzida em Mato Grosso, somos desejados. A Unemat adota escritores mato-grossenses no exame vestibular, uma vitória para a categoria e uma distinção para ela mesma. As escolas particulares fazem encomendas às editoras e agendam visitas de escritores a turmas interessadas em conversar sobre literatura. Editoras nunca tiveram tanta demanda, escritores iniciantes e veteranos, unidos no fazer literário. Procura-se. Procuram-nos. Recentemente, o município de Juína abriu procedimento para a aquisição de obras literárias para abastecer a biblioteca municipal que recebeu premiação internacional. Tangará e Cáceres, Sinop e Barra do Bugres, Santo Antônio do Leverger e Lucas do Rio Verde, são cidades onde o público lota os auditórios quando há lançamento de livros.

É na capital que devemos anunciar essa procura, onde está mais próximo o poder que nos procura para limitar não nos procura para conhecer. Como criar uma sensação no universo simbólico da cidade? Essa é uma das provocações do trabalho Procura-se. A repetição é uma ferramenta eficaz. Milhares de lambe-lambes com rostos de mais vários escritores de Mato Grosso tomaram o espaço púbico. A grande escala repete estes rostos com a mesma frase. Rostos com a mesma frase. Mesma frase. Estamos todos foragidos. O muro vai ser página. A cidade vai ser livro. Procura-se. Busca-se conhecer. Quem somos nós? Somos escritores. Fazemos literatura. Queremos espaço. O espaço que é furtado aos escritores dentro de muitos espaços criamos fora. Viramos do avesso, expomos as entranhas. O que não se quer noticiar vira manifesto. 

Literatura é mais do que o receituário do médico, a sentença do juiz, a reportagem do jornalista. É mais do que o manual de autoajuda, mais do que teses de doutorado e enciclopédias. Literatura é sonho em prosa ou poesia, é invenção e reflexão, é retrato e criação. Literatura é arte. É a arte que constrói a nossa identidade e não nos deixa esquecer de que somos humanos. Reduzir literatura ao utilitarismo é uma violência. É dizer: a poesia e a ficção não prestam para nada. As mentes mais obtusas interpretam a autonomia da arte como falta de serventia. Quanta pobreza intelectual, quanta aridez estamos vivenciando atualmente, uma mentalidade típica de fanáticos e ditadores.

FOTO DIVULGAÇÃOProcura-se

Rufando Bombo

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