• 11 de novembro de 2019

Por mim, derrubava tudo! Por Rodrigo Wronski

Em uma terça-feira de janeiro na qual eu não queria me levantar, dessas que para muitos
representam a maior parte dos dias, fui ao trabalho como manda a rotina que sempre me contraria em
dias como esses. Ao ingressar na Rua Voluntários da Pátria (coração do centro histórico cuiabano)
me deparei com cordões de isolamento e ruínas de boa parte de um prédio. Era o centro histórico
perdendo uma parte de si, e eu me sentia como se o coração fosse o meu.
Devidamente tombado pelo IPHAN, a fachada do prédio que compunha a primeira gráfica de
Cuiabá desmoronou e minha última impressão não foi nada animadora. Naquele dia ao cruzar e
indagar pessoas do meu círculo social, algumas se indignavam pelo descaso do poder público, mas
devo admitir que a quantidade de gente que refreou minhas lamentações exclamando “Por mim,
derrubava tudo!” foi considerável e me induziu a uma profunda reflexão. Após me esclarecerem seus
anseios por desenvolvimento e modernização, coloco-me aqui como um receptivo anfitrião para
apresentar-lhes minhas modestas e talvez pouco confortáveis considerações.
Primeiro nos é conveniente falar sobre o amadurecimento humano, propriamente para não
perdermos a oportunidade da metáfora. Gosto de pensar que minha personalidade é resultado das
experiências que me moldaram e irei pretensiosamente inferir que o leitor concorda com isso. Sei que
na linha do tempo essas experiências individuais parecem insignificantes, e são, se observarmos
apenas a cronologia, porém se considerarmos toda a carga cultural que carrega a memória, teremos a
dimensão do que é conhecer o passado para moldar novas alternativas para o futuro. Ao dissecar o
peso cultural que sempre me ligou ao catolicismo, por exemplo, peso este composto por costumes
históricos, sociais e familiares, não tive grande dificuldade em abandoná-lo e observar que há outros
parâmetros para se interpretar as questões do mundo, os quais alguns naturalmente me cativaram mais.
É verdade que conhecer o passado não nos dá a habilidade de adivinhar o futuro, mas até mesmo
os indivíduos que trabalham com investimentos de risco observam determinados padrões de
comportamento consolidados para definir suas empreitadas, são essas observações que tornam as
aplicações menos arriscadas e o que muitas vezes abrem novas alternativas de investimento. Estou
certo de que o mais conservador dos leitores reconhecerá o que estou dissertando e que o maior
entusiasta de uma revolução virtuosa não aplicaria o contrário. Não é por gosto literário que “O
Capital” de Marx ainda é estudado pelas economias mais liberais, o intuito é o de criar alternativas
ao que ali fora apontado e estabelecido.
Yuval Noah Harari, integrante do Departamento de História da Universidade Hebraica de
Jerusalém explica em seu livro Homo Deus que “Esquecemos que nosso mundo foi criado numa
cadeia de eventos acidental e que a história configurou não apenas a tecnologia, a política e a
sociedade, mas também nossos pensamentos, temores e sonhos”, portanto, para um historiador ou um
sociólogo que se propõe estudar e documentar uma identidade social, ou mesmo para qualquer um
que queira conhecer o resultado desses estudos, conhecer a arquitetura predial e as disposições
geográficas e econômicas das regiões históricas, se não é tudo que precisamos para conceituar uma
identidade social, certamente é parte fundamental para o entendimento do contexto.
Pelo centro cuiabano, que se formou a partir de 1722, quase posso ouvir (e não obstante sou capaz
de imaginar) os garimpeiros e vendedores de ouro negociando e efetuando suas transações. A
imaginação felizmente é auxiliada pelos casarões que abrigaram tais negociações e que ainda hoje
estão de pé, um deleite para quem pretende consultar a história e apreciar a cultura local. A
caracterização da identidade social é uma jornada profunda e complexa que exige análises técnicas
da história e da cultura juntamente a observações do progresso. Mais penoso ainda seria edificar
conclusões minimamente exatas partindo daquilo que já não existe mais.
Preservar a história é garantir que esta possa ser analisada sob diversas perspectivas, com novas
abordagens que vão evoluindo através de gerações. O mapeamento, as fotografias e detalhamentos
documentados podem dizer tecnicamente muito a respeito das construções, porém uma visita in loco
e uma análise material despertam sensibilidades que nenhum documento descreveria. Se fosse assim,
seria o suficiente apenas ler sobre a Grande Muralha da China ou sobre Machu Picchu, para quê se
dispor a fazer longas viagens e se preocupar com taxas cambiais? Quando nos aventuramos por
destinos turísticos como esses (com valor histórico), geralmente buscamos compreender mais a
respeito dos moldes sociais do local e de determinadas épocas, consequentemente, entender o elo que
se estende até a característica social atual.
Quem passa pelo centro histórico de Cuiabá deve notar que há ali algumas igrejas católicas que
compõem este patrimônio público. Pelo menos duas delas foram contempladas com merecidos
cuidados de preservação (Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Bom Despacho) e são hoje
apresentadas como símbolos de referência da nossa cidade. O que representa este simbolismo todo,
se não a apresentação de parte da nossa identidade social? Um viajante que passa por ali certamente
deve pensar: a julgar pela arquitetura barroca dessas igrejas, a sociedade cuiabana deve ter raízes
religiosas clássicas.
Infelizmente a quantidade de prédios revitalizados não é satisfatória e está longe de ser, para ser
justo devo citar que alguns prédios que são ocupados por órgãos públicos, bancos e comércios em
geral são devidamente preservados, mas o centro histórico em geral, vem sucumbindo ao descaso e
ao olhar para o passado não é difícil entender este triste presente. Famílias políticas convencionais
também são capazes de remontar historicamente o cenário atual quando as analisamos
retrospectivamente, não nos faltam exemplos de personalidades clássicas que permeiam há muito
tempo a administração pública responsável pelo nosso patrimônio histórico, mas ao observar estes,
não me restam alternativas, a única exclamação que posso sustentar é a de que por mim, derrubávamos
todos!

RODRIGO WRONSKI é  servidor do Instituto Federal de Mato Grosso.

Rufando Bombo

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