O meu vizinho, Gustavo Lima e a morte / por Eduardo Mahon

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Mania besta de morrer. Como se não fôssemos todos nós para a mesma vala. Calma! Cada um terá vez. A gente morre. Inevitavelmente. Eu diria até pontualmente. Ainda assim, tem gente que morre em vida dezenas, centenas, milhares de vezes. Morro de vontade… é o que se diz. Morro de medo. Morro de pena. Morro de ódio. Morro de sono. É morte pra tudo quanto é lado. As pessoas querem morrer por tudo.

E por nada. Morrer de amor, vá lá, a gente até releva. Um Vinícius de Moraes, por exemplo, arrumava em cada amor, uma morte nova e, em cada morte, uma poesia linda. Ele mesmo, o poetinha, ensinava que “a gente mal nasce e começa a morrer”. Verdade, verdade! Mas não precisa exagerar. A morte não pode ser assim banalizada. Morrer de tesão. Morrer de calor. Morrer de frio. Morrer de curiosidade.

Ninguém morre disso, por favor! É uma mania mórbida de enfiar a morte no meio de tudo. Há quem não se satisfaça com uma morte apenas. Quem se lembra de “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”? Sempre me perguntei: uma morte não basta? O sujeito estava ali duro como um pau, morto da silva. Não era suficiente para os amigos. Morreu de novo, dessa vez em definitivo, na esbórnia, na boemia.

A morte é quase onipresente. Até defunto fala. Que o diga Brás Cubas, do Machado. Jazia não só morto, como enterrado. Não interessa: o presunto lavrou as memórias, com direito a rinoceronte, não é? É morte para tudo o que é lado, de todas as formas, para todos os gostos. Morreu de dor. Morreu de rir. Morreu sentado. A gente morre e não vê tudo. Todo mundo quer dar pitaco na morte. Morte e Vida Severina. A morte do caixeiro viajante. Cidades Mortas. As intermitências da morte. A morte de Ivan Ilitch.

Crônica de uma morte anunciada. Tudo sobre a morte. Essa fascinação é velha. O Livro dos Mortos, dos longínquos faraós, tinha as senhas da morte e da vida. Osíris voltou dos mortos. Já Orfeu meteu-se entre eles. Mawutzinin queria trazer os mortos de volta. Lázaro foi outro que a conheceu de perto. Até Jesus foi e voltou.

A morte é uma fixação tão grande que precisa ser testada, aprovada, homologada, certificada. Não basta morrer o corpo, é preciso que a mente faleça. Depois, a funerária. Depois, o velório. Depois, cemitério. Depois, a certidão. E, quando o sujeito pensava em descansar em paz, há panaceia no além-túmulo: abre-se o inventário.

Portanto, ninguém quer morrer de verdade. Se quer, arrepende-se e faz de tudo pra voltar. Insistir em morrer só vi com Getúlio Vargas que fez uma troca – morria para entrar para a História. Não foi uma troca ruim, reconheço. Por outro lado, estamos fartos de morte por engano. Morreu Julieta pensando que Romeu estava morto.

Depois morreu Romeu vendo que Julieta se matara. Tenha santa paciência! Mas há quem resista à morte. Vadinho voltou para Dona Flor. Alguém já leu Incidente em Atares? Pois então! Por ali, o cemitério se rebelou.

Nem é preciso ir tão longe. Lênin está aí para quem quiser ver, firme e forte. Elvis é outro. Elvis não morreu, não morre e não morrerá. Mas são exceções, claro. O resto gosta de morrer. Morre de tédio. Morre de inveja. Morre de solidão. Morre de cansaço. Morre de alegria. Morre de desgosto. Morre de surpresa. As pessoas morrem ou dizem que morrem e, talvez, morram mesmo, mas não sabem. Parem com isso!

A vida não é para ser vivida apenas. A vida tem que ser vívida, com perdão da redundância. Que paranoia de morte é essa, minha gente?! Por que a pressa? A vida é só uma, pelo menos no que diz respeito ao CPF.

Se a alma retorna, são outros quinhentos. Viver, até onde se saiba, é intransferível, indelegável e improrrogável. O resto é tema pra mesa branca. Bem ou mal, estamos vivos. Não aguento mais o vizinho escutando Gustavo Lima: “eu vou morrer, eu vou morrer, mas não paro de beber”. Talvez seja isso. Estou revoltado com a morte. Com o vizinho. Com o Gustavo Lima. Ah não. Gustavo Lima é de morte!

Eduardo Mahon é escritor.

 

Sobre o Autor

rufandobombo

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