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Taques, uma comédia burlesca! Edésio Adorno

Quarenta dias depois de decretar intervenção no contrato da EIG Mercados Ltda com o Detran/MT, o governador Pedro Taques (PSDB) choca a opinião pública com uma confissão estarrecedora: reconhece que o decreto, por ele assinado, ainda não saiu do papel e que a empresa, pivô do mega escândalo que empurrou parte de sua família para o xilindró, continua faturando milhões na autarquia.

Incapaz de apresentar uma justificativa jurídica convincente, o governador forneceu respostas evasivas a questionamentos da imprensa e revelou um atributo intelectual, até então desconhecido do grande público. Taques não é nenhum Gil Vicente, mas, como o renascentista, domina o gênero literário denominado farsa.

Sem compromisso com a verdade e sem medo do ridículo, Taques fez uso da irresponsabilidade própria do burlesco para livrar a própria cara e não perder o rebolado rumo ao quimérico projeto de reeleição.

Constranger publicamente o interventor Augusto Sérgio de Sousa Cordeiro e o presidente da autarquia, Thiago França, com a ameaça de responsabilizá-los criminalmente pela não suspensão dos pagamentos milionários a EIG Mercados Ltda faz parte do humor ridículo presente no gênero literário tão bem difundido por Vicente.

Como parte da encenação, Taques fez cara de besta e deixou jornalistas extasiados com uma resposta tipo papo de ganso.

Disse o governador: “eu também quero saber. Tanto que já determinei ao controlador-geral que tome as providências, inclusive criminais, de o porque o Detran não tomou as providências. Eu tenho esse documento, quero saber exatamente isso, porque o decreto precisa ser cumprido e o Detran vai ter que responder isso e mostrar para todo mundo”.

Em qualquer lugar do mundo, na administração pública ou privada, quem não cumpre ordem superior tem o pescoço decepado pela guilhotina da demissão. No governo Taques, a lógica é o desprezo a lógica elementar da boa governança.

O interventor, designado para substituir a EIG Mercados e o presidente do órgão, que deveria facilitar as coisas e garantir efetividade ao decreto governamental, são acusados de relapsos e permanecem no exercício de suas atividades.

Ao contrário de chamá-los a xinxa e indicar a porta de saída da administração pública para os servidores, por suposto descumprimento a ordem superior e a preceito legal, Taques preferiu jogar para a plateia e exigir que o chefe da Controladoria Ciro Rodolpho Gonçalves tome todas as providências, inclusive criminais, para identificar as razões pelas quais o contrato do Detran/MT com EIG Mercados ainda não foi suspenso.

É de obviedade ululante que o servidor de carreira Augusto Sérgio e o ocupante de cargo comissionado Thiago França nada tem a ver com a rapinagem no Detran/MT. Os personagens da organização criminosa que assaltou a autarquia já foram identificados, carimbados e rotulados pela Defaz e pelo Gaeco. Alguns estão no xilindró e outros abrilhantam a devida ação penal em liberdade.

Entre os peixes graúdos encarcerados, estão o deputado Mauro Savi, os primos ilustres e poderosos do governador – Paulo e Pedro Jorge Taques, além do empresário “Grilo”, entre outros personagens consagrados na arte de pilhagem ao patrimônio público. Os abutres teriam vampirizados mais de R$ 37 milhões do Detran. Uma baita grana!

Segundo denúncia do Gaeco, a organização mafiosa, que teria tungado quase R$ 40 milhões, seria formada por 51 indivíduos e sete deputados estaduais, entre eles, o líder de fato de Taques na Assembleia, Wilson Santos e o irmão de estimação, Elias Santos.

Ao afirmar que também quer saber porque o contrato não foi suspenso, Taques transmite a falsa mensagem de desconhecimento das intercorrências de ordem legal entre o Detran/MT e a empresa EIG Mercados.

Para corroborar falsa ignorância fática da sangria no órgão, o responsável pela administração pública do Estado, inclusive do Departamento de Trânsito, reincorporou o espirito de membro do MPF e determinou que seu subordinado, controlador-geral, oficie a polícia para investigar Thiago França e Augusto Sérgio a fim de descobrir porque o contrato não foi suspenso e porque a empresa continua embolsando milhões na autarquia.

Ah, não vai haver inquérito e nem investigação policial. O interventor vai continuar exercendo a função a ele atribuída e França não será apeado da presidência do Detran/MT. Tudo que Taques disse faz parte de um enredo previamente ensaiado para potencializar seu espetáculo de natureza burlesca. Apenas comédia, baixa comedia!

Edésio Adorno é advogado em MT e escreve para o RDNews toda sexta-feira. E-mail: edesioadorno@gmail.com

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