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Prevenção e medicação/ Por RODRIGO WRONSKI 

Não é alheio a ninguém o cenário violento que assola nosso país, e pra ser honesto não me recordo de algum período onde este cenário foi diferente. Até mesmo os mais ricos dos indivíduos não pode dizer que está totalmente seguro sem antes lançar mão de bons recursos de segurança particular.

 

Em 1991 a guerra do Golfo matou entre 25 e 50 mil iraquianos, no Brasil se calculava 30 mil homicídios no ano e paralelamente a isso eu estava pronto para experimentar e conhecer essa realidade, realidade que até então se resumia à segurança do útero materno. Em 2018 o número de homicídios registrados foi de mais de 50 mil e analisando retrospectivamente os 28 anos de dinâmica experimental e opinativa me deparo com mudanças radicais de posicionamentos pessoais, já fui do “bandido bom é bandido morto” quando adolescente ao “bandido é vítima da ausência estatal” já no início da vida adulta. O certo é que quanto mais experiências, conhecimentos científicos e político-sociais se acumulam fica mais atrativo ponderar que há validade em ambos os pensamentos no exercício filosófico.

Diante de todo este exercício de compreensão seria superficial ignorarmos quem são os principais atingidos por tamanha discrepância social: os trabalhadores

É óbvio que a marginalização histórica e o desprezo por determinadas classes está diretamente ligada a essa disfunção social chamada violência, eu não ousaria afirmar o contrário e nem faria sentido, porém quando se pondera a validade da radicalização do pensamento, é de um aspecto completamente individual. Imagine que um integrante da sua família trabalha na educação pública, é professor. E que no exercício de suas obrigações funcionais há uma indisposição com um determinado aluno potencialmente perigoso que foi devidamente desligado compulsoriamente da escola. Este aluno adolescente então resolve perseguir o seu ente querido por este ter cumprido seu papel organizacional.

 

Nesta configuração de ameaça e iminente ataque é muito natural que você fique revoltado, pensando no quanto você e seu familiar trabalham e como ficam inseguros e reféns da ameaça feita por quem, além de não apoiar a sociedade, tem uma conduta altamente reprovável. Neste caso, seria melhor que este indivíduo “sumisse”, ou que os agentes de segurança pública o trancafiassem eternamente para que você e seu parente possam trabalhar e viver em paz.

 

No segundo caso, a categorização dos infratores como “vítimas da sociedade” tem sustentação numa esfera política e social, ao pensar em ações de políticas públicas o estado leva em consideração as análises estatísticas. Dificilmente o governador vai considerar o caso específico do seu familiar para determinar onde as rondas policiais irão atuar. Mais difícil seria que os deputados federais diminuíssem a maioridade penal para 14 anos porque você está se sentindo inseguro diante do adolescente, salvo por simbolismo e representatividade de muitos outros casos parecidos, numa escala estatística expressiva, as vezes a lei leva o nome deste simbolismo, como é o caso Maria da Penha.

 

Espertamente tendemos a levar em consideração a individualidade, pois nesta está a urgência da sobrevivência, individualmente não parece sensato esperar que o governo cuide das crianças da periferia, para que a próxima geração seja muito mais incluída, diante da ameaça iminente. É correto dizer que para fazer o bem social primeiramente é preciso estar vivo, trabalhando em paz, contribuindo e moldando novas características sociais. Não se distanciando dessa realidade, ainda devemos ter a compreensão que a política inclusiva é a prevenção desta doença nacional. E é muito melhor prevenir do que remediar.

 

Diante de todo este exercício de compreensão seria superficial ignorarmos quem são os principais atingidos por tamanha discrepância social: os trabalhadores. Na classe alta e política, grandes responsáveis por essa marginalização histórica, há o conforto e segurança dos melhores condomínios fechados, seguranças particulares, carros blindados. Sobra ao trabalhador das classes média e baixa o ônus de décadas de displicência política e econômica, não me surpreende que atualmente presenciamos o maior apelo público por medidas de segurança de que me recordo nos 28 anos que possuo. Porém tão importante quanto tirar infratores das ruas para uma manutenção imediata da segurança é fomentar a educação, cultura, lazer e esporte onde ainda há escassez inclusiva.

 

A respeito dos conflitos ideológicos, imagino que ninguém tem claro na consciência o desejo de fazer uma limpeza étnica ou social, também não imagino o desejo ilógico de levar flores e chocolates a infratores, o que freqüentemente fazemos é tentar elevar as políticas de segurança pública usando como instrumentos medidas diferentes que acreditamos ser opostas, mas que na realidade cabem e devem ser aplicadas simultaneamente.

 

Reprimir os infratores adultos que foram historicamente desprezados e não tiveram acesso aos serviços públicos pode parecer muito cruel deste lado da análise, mas como dar paz e segurança imediata aos inocentes da classe trabalhadora e produtiva? O fato é que devemos nos prevenir, mas quando a infecção se instala no organismo, de imediato, é antibiótico que devemos tomar ou podemos não sobreviver.

 

RODRIGO WRONSKI é  servidor do Instituto Federal de Mato Grosso.

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